Conservação e Habitats
A conservação dos habitats costeiros é o fator mais crítico para a sobrevivência do boto-cinza (Sotalia guianensis), um animal que vive exclusivamente em águas rasas, baías, estuários e enseadas do litoral brasileiro. Por não irem para o mar aberto, esses animais compartilham cerca de noventa por cento do seu espaço vital com atividades humanas intensas, o que gera uma crise silenciosa de conservação decorrente da degradação ambiental, do tráfego de embarcações e da poluição urbana e industrial.
Essa proximidade extrema com o homem conecta diretamente a sobrevivência da espécie ao grave problema das redes de pesca. A maior ameaça física direta ao boto-cinza é a pesca incidental, conhecida como bycatch, que ocorre principalmente por meio das redes de emalhar e das chamadas redes fantasmas, que são abandonadas ou perdidas no mar.




Como os botos utilizam o sistema de ecolocalização para navegar e caçar, eles muitas vezes não conseguem detectar essas malhas finas sob a água. Ao tentarem capturar os mesmos peixes que os pescadores procuram, os golfinhos acabam se emaranhando. Sendo mamíferos, eles precisam subir periodicamente à superfície para respirar, de modo que o aprisionamento nessas estruturas causa a morte rápida por asfixia.
O aumento na frequência dessas capturas acidentais reflete diretamente nos episódios de encalhe nas praias. Quando um boto morre no mar, as correntes e marés frequentemente empurram a carcaça até a areia. O monitoramento dessas ocorrências funciona como um termômetro ambiental para os cientistas, pois a análise necroscópica dos animais revela marcas profundas de cordas, nadadeiras cortadas ou impressões de redes na pele, comprovando que a pesca predatória ou ilegal continua agindo intensamente em refúgios biológicos cruciais, como a Baía de Sepetiba, no Rio de Janeiro.
Para enfrentar esse cenário, o Instituto Boto Cinza atua há anos na proteção da espécie e do ecossistema marinho a partir de sua sede em Mangaratiba. O trabalho da instituição fundamenta-se na pesquisa científica, utilizando a técnica de fotoidentificação, que consiste em fotografar e catalogar as nadadeiras dorsais dos animais para identificar cada indivíduo por meio de suas marcas e cicatrizes únicas. Além disso, o instituto integra ativamente a Rede de Encalhes de Mamíferos Marinhos, recolhendo carcaças e animais debilitados para diagnosticar as principais causas de mortalidade. Sabendo que a fiscalização punitiva isolada não resolve os conflitos sociais, a organização também desenvolve projetos de inclusão comunitária, capacitando pescadores artesanais e suas famílias para o turismo comunitário sustentável de observação de cetáceos, transformando o boto vivo em uma fonte de renda alternativa.
Complementando essas ações de conservação e engajamento social, o Instituto Boto Cinza promove regularmente mutirões e projetos de limpeza de praias e manguezais na região da Costa Verde fluminense. O lixo marinho, composto majoritariamente por plásticos e microplásticos, ameaça os botos tanto pela ingestão acidental quanto pela contaminação da cadeia alimentar. Nessas ações, os resíduos recolhidos são triados e quantificados para gerar dados científicos sobre as fontes de poluição locais. Esses eventos de limpeza são sempre integrados a atividades de educação ambiental voltadas para escolas públicas e comunidades locais, demonstrando de forma prática o impacto do descarte incorreto de resíduos na saúde dos oceanos e transformando o lixo coletado em ferramentas de conscientização, como oficinas de arte e esculturas que simbolizam a urgência de manter as praias limpas.